Disruptores endócrinos no dia-a-dia: como eles afetam as crianças, onde eles estão e como evitá-los

O que são disruptores endócrinos (DEs)?

Disruptores endócrinos (DEs) são compostos químicos que podem atrapalhar o funcionamento dos hormônios no nosso corpo. Eles podem agir de maneiras diversas, mas se hipotetiza que eles imitem ou bloqueiem a ação dos hormônios que já produzimos naturalmente, e assim causam complicações para a saúde.

Por que esse assunto preocupa pais e endocrinologistas pediátricos?

Nos últimos anos, se percebe que algumas doenças estão se tornando mais comuns na infância, dentre elas:

  • obesidade
  • diabetes
  • alterações nos órgãos genitais ao nascimento
  • puberdade precoce

Isso levanta dúvidas na comunidade científica se há algum fator ambiental, como os DEs, interferindo na saúde infantil. A exposição aos DEs afeta as pessoas de maneiras diferentes, dependendo do grau de exposição, da fase da vida, do sexo e outros fatores individuais ainda desconhecidos.

Ainda, as crianças são mais sensíveis aos DEs, dado que o corpo delas é menor, elas estão em fase de crescimento e também têm mais dificuldade para eliminar substâncias nocivas. Os hormônios têm um papel muito importante na infância e são determinantes para a integridade do organismo para o resto da vida, então qualquer interferência nesse período pode causar efeitos para o resto da vida.

 

Então, como essas substâncias agem?

Para entender melhor, podemos dividir as formas de ação dos DEs de 3 formas

  1. Imitação ou bloqueio de hormônios –  podem fazer o corpo acreditar que está recebendo um hormônio  ou impedir que o hormônio verdadeiro funcione

  2. Mudança na produção e no uso dos hormônios – podem atrapalha enzimas que o corpo usa para produzir ou quebrar os hormônios, gerando desregulação

  3. Alteração da função dos genes (epigenética) – os DEs podem modificar o jeito como os genes são ativados ou desativados, mudando a expressão genética.

 

Quais são os principais DEs encontrados no dia-a-dia?

Bisfenol A (BPA)encontramos em embalagens plásticas de alimentos, recibos térmicos.

Ftalatos – encontramos em brinquedos, embalagens de alimentos, produtos de higiene pessoal e equipamentos médicos.

Pesticidas – encontramos nos alimentos e na água

Parabenos – encontramos em loções, em xampus e em cosméticos em geral.

PCBsencontramos em transformadores elétricos antigos, tintas, selantes e depositados na gordura animal.

 

Mas esses efeitos negativos são comprovados cientificamente?

Há mais de  4 mil substâncias conhecidas que podem ter ação de DEs. A maior parte dos estudos sobre como  os DEs agem são em animais, o que não é a forma mais comprovada de demonstrar efeitos em seres humanos. Porém, provar que essas substâncias fazem mal ao ser humano em estudos controlados em humanos é difícil, já que é quase impossível estudar seus efeitos dos DEs separadamente e  que as pessoas são expostas a diversos potenciais DEs todos os dias.

 

Então, se não está 100% comprovado, por que devo me preocupar?

A maior parte das fontes de DEs na criança é proveniente de coisas supérfulas e que já não fazem bem à saúde. Para diminuir o contato com DEs, algumas atitudes simples já ajudam:

  • Na alimentação: prefira alimentos in natura ou pouco processados, de produção local e frutas de estação. Evite esquentar comida em embalagens de plástico — use potes de vidro, porcelana ou aço inox para preparar os alimentos.

  • Nos produtos de higiene e beleza: evite qualquer cosmético desnecessário na infância. Substâncias como ftalatos, parabenos, triclosan e fragrâncias artificiais são possíveis DEs. Crianças não devem usar maquiagem, já que a preocupação estética excessiva com estética nessa fase pode ter efeitos psicológicos negativos e o uso desse tipo de produto não é de segurança comprovada.

  • No ambiente: use menos plástico, beba água filtrada a e descarte o lixo de forma correta.

Por fim, essas atitudes ajudam na redução da exposição aos DEs e contribuem para uma vida saudável.

Fontes:

1. Monneret C. What is an endocrine disruptor? Vol. 340, Comptes Rendus – Biologies. Elsevier Masson SAS; 2017. p. 403–5.
2. Predieri B, Iughetti L, Bernasconi S, Street ME. Endocrine Disrupting Chemicals’ Effects in Children: What We Know and What We Need to Learn?Vol. 23, International Journal of Molecular Sciences. MDPI; 2022.
3. Ghassabian A, Vandenberg L, Kannan K, Trasande L. Endocrine-Disrupting Chemicals and Child Health. Annual Reviews [Internet]. setembro de 2021;(62):573–94. Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev-pharmtox-021921-
4. Candido da Silva CC, Pedroso de Paula LC, Nascimento ML, Barbosa ME, Libertatore Jr RDR, Machado Pinto R, et al. Desreguladores Endócrinos: Informações para o Pediatra. Documento Científico – Sociedade Brasileira de Pediatria. fevereiro de 2021;(10).